O Católico Roqueiro do Candomblé que Toca Axé
- Texto e Fotos: Filipe Alcantara
- 19 de out. de 2015
- 2 min de leitura
COMPORTAMENTO
Esta é uma típica história que só poderia acontecer na Bahia, terra reconhecida pelo sincretismo religioso e pela convivência de pessoas das mais diferentes raças e crenças. O católico do candomblé é Erlon Santos, 29, que trabalha como vendedor na feira da Sete Portas há seis anos na loja Rainha dos Orixás, especializada em artigos para candomblé e plantas medicinais. Este é seu local de trabalho de domingo a domingo das 07 às 18 horas.
A loja é propriedade do pai dele, que inclusive é fitoespecialista, ou seja, estudioso dos efeitos medicinais das plantas. Além do próprio Erlon, mais dois funcionários trabalham na Rainha dos Orixás, que só não abre dois dias no ano: Dia dos Comerciários e dia 1º de janeiro.
As plantas medicinais, em sua maioria, são compradas de plantadores de Mapele, bairro da cidade vizinha, Simões Filho. Já as esculturas dos orixás são feitas em fábricas artesanais localizadas nos fundos dos quintais do bairro de Narandiba. A loja possui mais de 100 imagens de orixás e cerca de 50 tipos diferentes de plantas, que servem tanto para banhos religiosos quanto no tratamento de doenças, desde anti-inflamatórios, como a folha de aroeira, até repositores hormonais.

O vendedor Erlon ao lado de vários tipos de folhas medicinais
Apesar de trabalhar numa loja voltada para as religiões africanas, Erlon é católico e, inclusive, durante a nossa visita se recusou a tirar uma foto ao lado da imagem da entidade Pomba Gira. Ele admitiu não se sentir confortável perto da imagem. Essa é a rotina de um católico que convive diariamente com os objetos e com os praticantes de outra religião, bastante diferente da sua, mas que é um belo exemplo de respeito e tolerância às diferenças. Ele conta que atende todos os clientes com muita cordialidade e até aprendeu muita coisa sobre o candomblé, pois como todo bom vendedor, ele tem que conhecer o que está vendendo.
Paralelamente ao trabalho de vendedor, Erlon exerce a atividade de músico nos finais de semana, um hobby que também ajuda no pagamento das contas. Formado em música pela Associação Pracatum, projeto social fundado por Carlinhos Brown no Candeal, bairro de Salvador, o vendedor toca violão e guitarra desde os 13 anos e atualmente integra duas bandas: Odoiá, banda de axé, e Agressão, banda de rock, outro bom exemplo de como ele não tem problemas com as diferenças. Apesar de se identificar roqueiro, sabe que o axé é muito mais aceito pelo público baiano, e que esse fato é garantia maior de casa cheia nos bares onde toca. Ele é católico, mas tira seu sustento do candomblé. Ele é fã de rock, mas toca axé nos fins de semana.

Orixás, santos católicos, tigelas de barro: Erlon vende isso e muito mais!